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Cachoeiras: A primeira das sete maravilhas do Caraça

Cachoeira Cascatinha

Tião Crispim*

O conjunto relevo, vegetação e hidrografia da RPPN Santuário do Caraça formam um cenário natural da grande diversidade biológica e beleza cênica, o que atraiu a atenção de viajantes estrangeiros como Spix, o botânico alemão, Carl Friedrich von Martius, o naturalista francês de August de Saint Hilaire dentre outros. Seus estudos pioneiros até hoje subsidiam importantes pesquisas no campo da fitogeografia, taxonomia e evolução filogenética.

A Reserva do Caraça está inserida na porção sul do contraforte da Serra do Espinhaço, no Quadrilátero Ferrífero, no Circuito do Ouro e Estrada Real. Ela é uma unidade de Conservação de âmbito federal criada pela Portaria do IBAMA, nº 32, de 20 de março de 1994 por iniciativa própria da Província Brasileira da Congregação da Missão que, por seu compromisso socioambiental, reservou, de seus 11.233 hectares de área total, 10.187,89 hectares como área de preservação. O intuito do Caraça é garantir-se contra possíveis interesses danosos ao seu patrimônio natural, bem como de contribuir com os benefícios da qualidade de vida do mundo para as gerações presentes e futuras.

O Parque Natural do Caraça é um bem-sucedido exemplo de como é possível manter, no Brasil, reservas privadas para a exploração do ecoturismo e atividades de pesquisa científica, além é claro, da visitação com objetivos turísticos, recreativos e educacionais.

Atualmente, o Caraça também integra a área destinada às Reservas da Biosfera da Serra do Espinhaço e da Mata Atlântica, reconhecidas pela UNESCO em 2005. Ademais, está inscrito na Área de Proteção Ambiental ao Sul da Região Metropolitana de Belo Horizonte (APA Sul – RMBH) e é um dos divisores de duas grandes bacias hidrográficas, a do Rio São Francisco e a do Rio Doce, tornando-se, também por isso, área prioritária para a conservação e para o equilíbrio ecológico.

Esta diversidade natural e geológica faz do Caraça um verdadeiro paraíso que esconde maravilhas que o Criador deixou para nos revelar os mistérios de sua criação. As dezenas de cachoeiras da reserva são uma atração à parte. Das gigantescas quedas d’água como, por exemplo, a Cascatona às pequeninas corredeiras que se multiplicam no Campo de Fora, as cachoeiras são uma atração à parte na imensidão preservada da reserva.

A Cascatona localiza-se no ribeirão Caraça, a seis quilômetros do Santuário, é a mais atrevida, a que desafia o espírito do turista. Tem aproximadamente, 80 metros de altura, em desnível.

Quem melhor definiu a Cascatona foi o Padre Pedro Sarneel, C.M, em seu livro Guia Sentimental do Caraça, 1953:

 

“A Cascata Grande é a primeira das sete maravilhas do Caraça. Antes da inauguração, em 1926, da estrada de automóvel, era o ponto por onde o peregrino tinha de passar, a cavalo ou a pé, quisesse ou não quisesse. Tinha de costear, à sua direita, em ladeira apertadíssima, uma muralha gigantesca, fortemente inclinada, quase a tombar, sem vegetação alguma, pingando gotas de água asquerosa e eriçada das rochas salientes que ameaçavam soltar-se, desabar, esmagar-lhe e fazer-lhe em migalhas todos os ossos do corpo. Apeava então, segurava e puxava pelo cabrestão a cavalgadura que, empacando, tremia também. Ambos, depois, continuavam pé ante pé, rolando sob os seus passos as pedras daquela terrível passagem. Tropeçassem, cairiam os dois no precipício que fica à esquerda. Poderia chamar-se passo mortal a rampa estreita e pedregosa. Muito bem fez o piedoso Superior, Padre João Vaessen, em construir ali um oratório, embora inexpressivamente gótico, e colocar nele a imagem da Virgem. E muito melhor ainda, o dinâmico Padre Jerônimo de Castro que traçou e executou a nova estrada que sobe, menos perigosa, a serra caracense.

O lugar acima descrito é, sem dúvida, o sítio mais pitoresco que o romeiro possa gozar. Do alto da rocha nua, contempla risonhas paisagens que se estendem ao longe, semeadas de grupos de habitações branquinhas, ondeadas de verdes colinas, coroadas ali dos dorsos redondos e acolá dos picos agudos de negras montanhas, por cima das quais estão suspensos, por vezes, e se desdobram mantos de transparentes nuvens que a luz do sol purpureia ou doura. Não há, em Minas, panorama igual, quadro tão sublime, vista que encante tanto.

No Caraça, tudo é grande, tudo é belo. Mas a maravilha das suas maravilhas é a Cascata Grande. É formada pelo rio Sumidouro que, depois de nascido na Verruguinha e se ter divertido, serpeando pelo vale, se esconde, desaparecendo debaixo da terra, entre rochedos cobertos por uma densa mata, a que se deu o nome de Funil. Correm alguns instantes, desse modo soterrado e, de repente, destapa-se e precipita-se de novo no espaço, assustando, pulando, gargalhando. É a Cascata Grande que salta, retumba, assusta.

O seu salto é de mais de cem metros. A sua água, que abre passagem entre mil blocos de pedra, esguicha, repuxa, desce e cai em borbotões de espuma… Soa, ressoa e ecoa com o fragor do mar que bate em penhascos. E, por sobre essa longa faixa de prata, flutua uma neblina eterna, onde, nos dias de sol, arcos celestes se movem e trepidam como a luz brilha e rebrilha nas facetas de um prisma. Deslumbrante o espetáculo que a natureza caracense oferece à admiração dos romeiros.

Se for engenheiro, turista calcularás a potência daquela volumosa queda d’água, estudarás a possibilidade da sua captação e esboçarás uma usina capaz de levar a cidades distantes luz e força elétrica. Digna de aplausos a tua ciência e técnica. Mas, caro engenheiro, aproveita também a tua visita à Cascata Grande para cantar e adorar o Criador do céu e da terra… Mistura a tua voz à voz que tão perto de ti troa no abismo, em louvor ao bom Deus que fez o Caraça tão grande e tão belo, “desde a Cascata soberba até o pobre lagrimal”.

Inúmeras outras cachoeiras, grandes ou pequenas, não importam o tamanho, embelezam ainda mais o Caraça e lhe confere ares de “caixa d’água” da região. A cascatinha, por exemplo, formada por quatro grandes degraus e quatro lindíssimas e escuras piscinas de água gelada, fica a 2 km do Santuário. É um grupo de quatro cascatas de lances com 10 metros cada uma, que acabam por formar lindíssimas piscinas naturais. Sua água, como de toda a região, é espumante e amarelada que nascem pelos lados do pico do Sol (2072m), de onde vem saltitando, por sinuosa encosta de pedras, ora resmungando em redemoinhos, ora murmurando canções para o deleite de ninfas e dríades, que apaixonadas habitam a região. Você verá que a Castinha não é tão pequena, como o nome parece indicar. É pequena em comparação com a Cascatona e com a Cascata do Capivari, por exemplo. “A água é tão fria que as senhoras em permanecendo nela por tempo prolongado remoçam de forma milagrosa”, diz o veterano dos Guias do Caraça, João Júlio. “Já os rapazes, por motivos óbvios, não devem permanecer por tempo mais avançado naquelas águas geladas” arremata o decano dos guias de montanha do Caraça. Chega-se à Cascatinha por uma trilha leve e bem sinalizada. O trajeto deve ser feito à pé. Ao nadar no local, deve-se ter cuidado com as pontas de pedras e áreas mais profundas.

Um dos sítios mais visitados na Reserva do Caraça é o Tabuões, Este distante quatro quilômetros do Centro Histórico e é feito por um percurso pela estrada de asfalto que liga Santa Bárbara ao Santuário e por uma trilha de terra batida bem sinalizada em meio a uma vegetação exuberante e diversificada. Esta trilha é bifurcada, tem-se à direita o Taboões de cima, formado por corredeiras no leito rochoso do Ribeirão Caraça e, à esquerda, o Taboões de baixo, onde o Rio Caraça se encontra com o córrego de mesmo nome.

No encontro dos córregos há várias piscinas naturais que oferecem possibilidade de banhos. As águas transparentes descem entre grandes pedras, formando escorregadores naturais. A vegetação no entorno é caracterizada por afloramentos rochosos, campos de cerrado e mata densa.

De grande beleza, os Taboões oferecem oportunidade de descanso e lazer, possibilidade de nadar e se banhar. Inclusive, uma pequena duna de areia fina ajuda a formar pequena praia em uma de suas margens. O local é preferido pelos namorados não só pela tranqüilidade, mas pela beleza cênica do local, um convite à paz e ao lazer espiritual.

 

Campo de Fora, o berço das águas cor de coca cola.

Se o Caraça é a “Porta do Céu”, o Campo de Fora é o paraíso. Este sítio bucólico, dotado de rara beleza, possui em cada quadrante vales, cachoeiras, riozinhos de águas enegrecidas, uma aquarela divina cuidadosamente estendida entre dois horizontes distantes. O lugar é tão divinamente enfeitado e a harmonia da beleza é tão radiante que nem mesmo o mais sensível dos observadores seria capaz de descrevê-lo em toda sua metonímica grandiosidade. É impossível contemplar toda a sua beleza e captar toda a sua maravilha. O horizonte que se descortina é um convite ao desconhecido; uma atração constante é o querer ir além; é o canto da sereia na crista do Espinhaço.

Ali no Campo de Fora a presença de Deus é percebida. Na vastidão daqueles jardins o divino se funde ao humano da nossa presença. Os jardins do Campo de Fora ostentam as mais exóticas e belas flores cultivadas com esmerado bom gosto pelo Jardineiro do universo que ali cria pássaros e insetos jamais vistos em sua morada universal.

A cada passo, a cada horizonte desbravado, um grandioso universo se abre exibindo as mais belas cachoeiras, as mais singelas flores, insetos e pássaros multicores rendendo homenagem ao Criador através daquele harmonioso conjunto de rara beleza, capaz de emocionar o mais insensível dos observadores.

Ali as cachoeiras são muitas, espalhadas pelos campos verdejantes de relevo ondulado. Uma merece destaque especial. Cachoeira do Campo de Fora, um conjunto de três quedas que formam piscinas e duchas naturais num local cercado por cordilheiras que formam os picos da Canjerana e da Conceição. Após 8 km de caminhada, a vista da cachoeira para quem chega até à encosta é surpreendente e divinamente maravilhosa. O riacho de águas tranqüilas precipita-se por entre as rochas que a emolduram, tecendo formas diferentes para cada queda. É um espetáculo, um convite à contemplação. Não há quem resista às suas águas convidativas e às suas piscinas naturais. É um mergulho em águas deliciosas e revigorantes.

Na próxima edição vamos visitar a Bocaina. Lugar misterioso, sinistramente lindo. Onde, no interior de uma grande gruta, deságua uma cachoeira de águas escuras, geladas e espevitadas.

Tião Crispim é*

Sebastião Fonseca e Silva, Guia de Turismo Pedagógico Credenciado da Reserva do Caraça – Graduado em Pedagogia pela ULBRA – Universidade Luterana do Brasil – Funcionário da Secretaria de Turismo, Cultura e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Santa Bárbara. Membro efetivo do InBrasCi – Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais, Mestre de Cerimônia, Coordenador da Biblioteca Pública Municipal de Santa Bárbara.

 

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