|

Gruta do Centenário – A mais profunda caverna de quartzito do mundo

Tião Crispim*

Gruta do Centenário A mais profunda caverna de quartzito do mundo

Como prometemos na última edição, vamos caminhar pela Serra do Caraça, tomar o Caminho do Pico do Inficcionado, o segundo mais alto da RPPN Santuário do Caraça e de toda a cadeia do Espinhaço, para alcançarmos, próximo de sua crista, o nosso destino: a Gruta do Centenário ou da Independência, como foi batizado em 1922. Nesta aventura levaremos, como recomenda o regulamento da RPPN Santuário do Caraça, guias experimentados que têm na cabeça, além da completa cartografia da região, um significativo acervo de conhecimento da flora, fauna e geografia da região.

A caminho deste lugar, ao deixarmos para trás o Santuário, tomamos rumo na direção leste, percorrendo trilhas que chuleiam as partes de um interessante, não raro endêmico, mosaico vegetacional estendido, qual uma colcha de retalho, na grande extensão do sopé do majestoso maciço de arenito que se afigura bem à frente do caminhante que já tem, às suas costas, a pontiaguda torre do Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens. Nos primeiros cinco kms caminha-se em direção ao vale da Bocaina quase todo o tempo em nível de altitude semelhante à do Santuário. Inicialmente percorremos um pequeno trecho de mata atlântica povoada de sauás, tucanos, esquilos e sagüis onde uma infinidade de liquens chama a atenção pelo colorido variado e berrante.

O clima e a suavidade do caminho nos faz pensar numa caminhada sem percalços. Ledo engano! Nosso otimismo começa a despencar quando a trilha, apesar de ainda bem definida, começa a atravessar campos sujos, onde vigorosos arbustos de pequeno porte predominam e reinam absolutos sobre uma vegetação rasteira e grande variedade de gramíneas. Nossa tensão é atenuada pelas constantes observações de Geraldo Neneco, o mais mateiro e matreiro dos guias, a cerca de plantas com atributos medicinais. Neneco é uma peça rara. É mineiramente desconfiado, uma pessoa simples, porém sábia e inteligente. Ele não gosta de complicar nada, a seu modo simplifica tudo. A todo momento manifesta sua experiência de mateiro receitando chás, descrevendo árvores e não raro vem com aquelas tiradas que lhe são bastante peculiares: “Estou domando um gavião pra levá e trazê as coisas no pico pra nós”, diz ele com aquela cara que não denuncia se está falando sério ou se é outra de suas infindáveis brincadeiras.

Após, mais ou menos, uma hora de caminhada, a primeira parada é às margens dum espevitado riacho, de águas límpidas, porém escuras e espumante, tributário do Ribeirão Caraça e cujo nascedouro são os arrabaldes do Inficionado. A presença de candeias, vegetação típica de áreas de uma certa altitude e de transição entre cerrado e mata atlântica nos dá uma certeza, “vai ser dura a jornada”.

Começam então as dificuldades, pois o primeiro desnível é de mais de trezentos metros (o famoso escadão) que nos leva ao primeiro platô de onde se avista, em panorâmica, todo o vale já percorrido e ao fundo a bela e esguia torre da primeira igreja neogótica construída no Brasil.

A partir daí o que nos é reservado é um espetáculo da mais rebuscada beleza cênica. Um esbanjamento de cores e arte produzido pela generosidade da natureza que ali se manifesta pródiga de surpresas, cujo inconveniente para desfrutá-lo é a dureza das caminhada.

“A trilha para a gruta do centenário é bastante seletiva. Não é caminho para fanfarrões fisicamente despreparados”, diz o decano dos guias do Caraça, João Júlio, que por mais de duas centenas de vezes trafegou por ali guiando gente de toda espécie e nacionalidade.

A encosta afronta a resistência de fanfarrões como eu e desafia nossa disposição de chegar. O cenário é de eloqüente contraste. Grandes pedras, vegetação ressequida e agressiva e uma vista deslumbrante de uma fatia maior da cadeia do espinhaço, nos faz resfolegar e, mesmo admirados, duvidar da nossa capacidade de chegar. “Estamos vencendo o escadão”, diz o guia João Júlio, ainda sem haver derramado uma gota de suor, “daqui a pouco estaremos no primeiro platô”, informação oferecida à guisa de consolo aos línguas-de-fora e boquiabertos membros da expedição.

São quase 10 km de trilha dos quais um pouco mais de 04km é de subida, cujo traçado só é mais suave até o segundo platô com muita propriedade chamado de Paraíso pelos guias. Na verdade nos deparamos com um jardim de canelas-de-ema que lembram uma paisagem jurássica em meio ás rochas lavadas de sol e esculpidas pelo trabalho incansável do sol, do vento e da chuva. É um espetáculo de rara beleza onde flores lilases, orquídeas, pequenas bromélias, disformes canelas-de-ema singelamente floridas, sempre-vivas e uma vista deslumbrante da região mais próxima nos convidam a uma reflexão. “Este local, nesta época do ano, transforma-se num jardim do éden”, diz o Guia Toninho Moraes, mais de trinta anos de guiagem, “useiro e vezeiro” em interpretar o sentimento da serra, se referindo àquele bucólico lugar repleto de raras flores de beleza rara, onde filetes d’água, além de dessedentar pequeninos insetos, roedores e grandes aventureiros, no silencio da manhã produzem sons de uma afinada orquestra imaginária

Após 06 horas de caminhada estamos chegando. A trilha agora, com a subida um pouco mais suave, é feita sobre largas lajes de pedras gigantescas, lisas, escorregadias em tempo de chuva e que nos conduz ao topo do inficcionado, a uma altitude de 2.070 metros, localizado no peito do gigante do Caraça, formação rochosa que deu origem ao nome daquela serra..

O Inficionado é recortado por fendas profundas, verdadeiras goelas escancaradas em quase todas as direções, formando uma paisagem dantesca de beleza indescritível e assustadora.

Ali está, a Gruta do Centenário, o maior abismo em quartzito do mundo. Seu acesso principal, ou “entrada oficial” como preferia o Pe. Tobiaz Zico – CM é uma bocarra, disforme e desdentada. É apenas uma das entradas que vislumbramos, pois essa caverna não possui uma entrada única e principal, mas um complexo de fendas com acessos independentes que se interligam. Nela se penetra pulando para baixo e seguindo por um túnel escuro até chegar a um largo encimado por uma abertura à moda de clarabóia. Daí a pouco mais o terreno descai e só é possível continua com cordas e técnica de rapel.

Uma pequena exploração ao redor desta entrada permitirá, dentre outras ousadias, avistar ao fundo, bem na face do abismo a misteriosa e ao mesmo tempo tenebrosa “Garganta do Diabo”. Suas formas foram modeladas por uma teimosia persistente e paciente erosão.  Ao longo do tempo em que vai sendo esculpido o Gigante Adamastor, mesmo adormecido “em berço tão esplendido”, vela pelo Espinhaço e, em especial, pelo Caraça, em toda sua grandiosa importância.

A ‘Garganta do Diabo’, é um precipício de grandes proporções localizado na parte central do maciço, cujas paredes são recortadas por fendas descomunais! O topo do Inficionado é assim mesmo, repleto de fendas, grutas e abismos. É no meio de uma dessas cristas que se encontra a entrada mais utilizada por aventureiros e turistas da ‘Gruta do Centenário’.

 

A maior gruta do mundo

 

Os primórdios da espeleologia brasileira nos séculos XVIII e XIX confundem-se com a história do Caraça. São desta época (1818) os relatos de dois naturalistas europeus, Spix e Martius, que citavam a existência de diversas fendas na Serra do Caraça: “Ressoa a montanha em diversos pontos com o estrondo de águas subterrâneas, que correm entre fendas e falhas de pedra, e finalmente aparecem embaixo, como frescas nascentes”. (Spix e Martius, 1838). Não é leviano pensar que eles se referiam à “Gruta do Inficcionado”.

Desde o século XIX as grutas do Pico do Inficionado já eram conhecidas. Pesquisadores e naturalistas que percorreram a região nessa época já citavam a existência de rios subterrâneos. Contudo, os primeiros registros espeleológicos só ocorreram em 1952, quando os padres do Colégio do Caraça fizeram uma topografia rudimentar da Gruta do Centenário.

A Gruta possui 3.790 m de comprimento e um desnível 481 metros e várias entradas, quase sempre em forma de abismos. As altitudes destas entradas variam de 2.051 metros na entrada superior, 1.958 metros na entrada clássica até 1.881 metros no Abismo do Inficcionado.

A gruta possui alguns salões e seu desenvolvimento é radicalmente vertical até a uma profundidade de 400 metros, a partir daí se observa uma brusca mudança, iniciando galerias planas ou com pequenos desníveis.

Seus corredores, verdadeiros labirintos, são estreitos e escuros, as galerias chegam a dezenas de metros de altura e o piso, escorregadio invariavelmente é de rocha, às vezes de areia nas partes mais planas. Até o momento já foram identificados três córregos no interior da gruta, o Córrego do Inficcionado, o Córrego do Chantilly e o Córrego do Areião.

A Gruta do Centenário ainda é uma verdadeira incógnita. Seu estudo mais profundo, sem qualquer intenção de trocadilho, demanda ainda um tempo maior. Apesar das restrições impostas pelo zelo com a natureza, pois os estudiosos evitam expedições em época de nidificação dos andorinhões, inquilinos temporários, mas regulares nas grutas, fendas e abismos da serra do Caraça, as expedições e os estudos continuam. A perturbação dos ambientes afóticos das grutas pode, e por certo compromete, o equilíbrio biológico do interior das cavernas e retarda o avanço das explorações. Por essas e por muitas outras razões vamos ainda, por muito tempo, falar e escrever sobre a Gruta do Centenário.

*Tião Crispim

É Sebastião Fonseca e Silva, Guia de Turismo Pedagógico Credenciado do Caraça – Graduado em Pedagogia pela ULBRA – Universidade Luterana do Brasil – Funcionário da Secretaria de Turismo, Cultura e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Santa Bárbara. Membro efetivo do InBrasCi – Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais e Mestre de Cerimônia.

Deixe um comentário

*